Mães atípicas divulgam nota de repúdio após Pacheco gravar vídeo para se promover na volta das terapias de crianças autistas em Marabá
As mães de 92 crianças autistas que ficaram sem atendimento após a suspensão abrupta das terapias pelo Município de Marabá divulgaram, nesta terça-feira (2), uma nota de repúdio contra o que chamam de “aproveitamento político” de uma luta que foi, segundo elas, conduzida exclusivamente pelas famílias, com apoio da Defensoria Pública, Ministério Público e pressão social organizada.
A manifestação ocorreu depois de uma reunião da Comissão de Saúde da Câmara Municipal realizada a portas fechadas, sem a participação das principais interessadas: as mães e pais que vinham travando, há meses, uma batalha pela retomada imediata das terapias interrompidas. Durante o encontro, a Secretaria de Saúde anunciou o credenciamento de uma instituição para voltar a oferecer os atendimentos — curiosamente, a mesma clínica que já prestava o serviço antes da suspensão.
O que causou revolta, porém, foi o comportamento do vereador Pacheco (PL), aliado do prefeito Toni Cunha (PL), que ao final da reunião gravou um vídeo para suas redes sociais, tentando capitalizar politicamente a conquista. Para as famílias, o gesto desrespeita quem de fato enfrentou o descaso da gestão municipal e pressionou para que a situação fosse resolvida.
O que diz a nota das famílias
A nota de repúdio, assinada pelas mães e pais das 92 crianças afetadas, denuncia três pontos principais:
1. A exclusão deliberada das famílias da reunião, sem convocação, aviso ou representação legítima.
2. A tentativa de vereadores de assumir o protagonismo de uma vitória que não lhes pertence, ignorando o esforço das famílias e de instituições como MP e Defensoria.
3. O descaso da Prefeitura e da Secretaria de Saúde, que só avançaram após forte pressão institucional e social.
Trecho da nota afirma:
“As 92 famílias atípicas diretamente prejudicadas pela falta das terapias […] vêm manifestar repúdio em relação aos atos e declarações realizados na última reunião da Comissão de Saúde. Nenhuma das mães ou pais diretamente atingidos foi convidado. A pessoa que disseram representar as 92 famílias pertence a uma associação que sequer foi atingida pelo problema.”
Outro trecho critica a postura de vereadores durante a reunião:
“Alguns tentaram passar a imagem de que fosse mérito deles e da gestão municipal. Na verdade, a Prefeitura teve verdadeiro descaso com as famílias, e só mediante pressão do MP, pressão social e celeridade do Conselho de Saúde foi possível fazer o credenciamento.”
As famílias também lembram que nenhum vereador esteve presente nos atos, reuniões e mobilizações que elas organizaram nos últimos meses.
Revolta nas redes sociais do próprio Pacheco
A tentativa do vereador Pacheco de se promover após a reunião gerou indignação imediata — inclusive entre seus próprios seguidores. Nos comentários da publicação, diversas mães criticaram duramente o que chamaram de “oportunismo político”.
Uma seguidora escreveu:
“Não somos objetos pra ser usados por alguns políticos. Corremos atrás dos nossos direitos junto ao Ministério Público, e hoje tão querendo fazer política em cima das nossas lutas.”
Outro perfil ligado à causa autista publicou:
“Nossa causa tem sido usada como trampolim. Famílias não são moedas de troca de votos nem de enriquecimento de clínicas. Respeitem os autistas e suas famílias.”
Outra mãe reforçou que a conquista só ocorreu pela pressão social qualificada e pela atuação do Ministério Público e Defensoria:
“Não se tratou de iniciativa espontânea da Prefeitura, mas de resposta tardia a uma demanda legítima e urgente.”
E uma mãe que participou diretamente das mobilizações completou:
“Quando fomos à luta atrás dos nossos direitos não apareceu nenhum político. Agora que conseguimos avançar, querem surfar na onda.”
Os comentários seguiram no mesmo tom, reforçando a indignação com o uso político da causa.
Conclusão
A repercussão da nota das famílias expõe, mais uma vez, a distância entre a retórica institucional e a realidade enfrentada por quem depende de serviços públicos essenciais. Para as mães das crianças com TEA, a prioridade agora é garantir que as terapias retornem de forma imediata e contínua — sem nova interrupção e sem exploração política de uma luta que, segundo elas, teve apenas um lado realmente comprometido: o das famílias.



